Fazer um discurso com segurança não exige vinte ensaios, mas três, cada um com um objetivo diferente: primeiro ler em voz alta e cortar os pontos onde tropeças, depois ensaiar de pé com cronómetro, por fim um ensaio geral em condições reais. Quem cumpre estes três passos e começa a tempo já não precisa de nenhuma fórmula mágica no próprio dia, só do texto ensaiado.
Ensaio 1: o ensaio de texto
O primeiro ensaio acontece à secretária, não na cabeça. Lê o discurso uma vez na íntegra, em voz alta, no ritmo normal de fala, de preferência sentado ou de pé com o manuscrito na mão. Ao ler em voz alta notam-se pontos que ficam invisíveis na leitura silenciosa: frases encaixadas que não deixam respirar, trava-línguas como «estatística estatal» ou pares de palavras com som parecido, parágrafos longos demais sem pontuação. Corta esses pontos de imediato e substitui-os por frases mais curtas. Um bom sinal: se tropeças duas vezes no mesmo sítio ao ler, o problema não és tu, é a construção da frase. Este ensaio é trabalho puro de texto, ainda não se trata aqui de palco ou de voz, mas de cada frase soar ao falar como soou ao ser pensada por escrito. Marca os pontos cortados e alterados diretamente no manuscrito, não só na cabeça, senão os mesmos tropeços voltam a aparecer no segundo ensaio, porque a correção não ficou registada em lado nenhum. Quem escreve o texto em formato digital deve lê-lo impresso para este ensaio; os erros de construção frásica notam-se, por experiência, mais facilmente no papel do que no ecrã.
Ensaio 2: o ensaio de voz
Agora entra o corpo. Levanta-te, liga o cronómetro e diz o discurso no volume real, como se já estivesses lá à frente. Duas coisas contam neste ensaio: o tempo e as transições. O cronómetro mostra se o discurso cabe no tempo previsto; quem está marcado para dez minutos e chega aos catorze tem de cortar agora, não já no próprio dia. As transições entre os parágrafos devem ser formuladas livremente, não lidas, é aqui que um texto se transforma num discurso falado. Formulações fixas, como a primeira e a última frase, mantêm-se literais, tudo o resto pode fluir por palavras próprias, desde que o fio condutor se mantenha. Quem repara que uma transição soa sempre diferente e nunca fica bem marca o ponto no manuscrito com uma palavra-chave, não com uma frase inteira. Também vale a pena repetir este ensaio pelo menos duas vezes: uma para estimar o tempo em bruto, outra para verificar se os cortes feitos trouxeram mesmo o tempo para dentro do previsto. Quem mede apenas uma vez e depois corta ao sentimento quase sempre sobrestima quanto tempo um corte realmente poupa.
Ensaio 3: o ensaio de palco
O ensaio geral simula a situação real com a maior fidelidade possível. De pé, com o traje adequado se possível, com o início e o fim decorados, já não lidos. De preferência perante um público de teste, nem que seja só uma pessoa que ouça e diga depois se percebeu tudo e se ficou demasiado comprido. Sem público de teste, também serve a câmara do telemóvel: gravar-se a si próprio é desconfortável, mas mostra sem piedade o que passou despercebido nos ensaios um e dois, um pigarrear nervoso, um olhar que salta constantemente para o manuscrito, uma frase que termina de forma diferente todas as vezes. Este ensaio acontece, idealmente, no mesmo local ou pelo menos num ambiente semelhante; ensaiar de pé na sala de estar sente-se diferente de estar no pódio real, mas aproxima-se mais disso do que treinar apenas de cabeça. Quem vê a gravação depois deve reparar em três coisas específicas, não em tudo ao mesmo tempo: ritmo, direção do olhar, muletas verbais. Tudo o resto só distrai na primeira visualização e leva a que a pessoa se incomode sobretudo com a própria imagem, em vez de trabalhar o discurso propriamente dito.
Quando ensaiar: nunca na noite anterior
O plano de 3 ensaios precisa de tempo para assentar, não de uma noite de maratona. O ideal é fazer o ensaio um cerca de uma semana antes da data, o ensaio dois três a quatro dias antes, o ensaio três um a dois dias antes. Quem empurra toda a preparação para a noite antes do discurso treina um texto por ensaiar sob pressão de tempo e falta de sono, o resultado é quase sempre mais nervoso, não mais seguro. A última noite antes da data deve ser, no máximo, uma passagem única e descontraída pelo texto já ensaiado, sem novos cortes, sem reescrever mais nada. Quem troca frases ainda na véspera aparece no dia seguinte com um texto que a boca ainda não conhece. Também o sono anterior conta como preparação: quem encurta a noite antes do discurso para ainda treinar mais perde, no final, mais concentração e força vocal do que aquilo que o treino extra traz. É melhor uma noite mais cedo com sono suficiente e, em troca, mais um ensaio calmo uns dias antes.
Quanto é demasiado: ensaiado a mais soa mecânico
Ensaiar tem um limite superior. Quem repete um discurso curto quinze vezes seguidas acaba por notar que soa mecânico, cada ênfase cai sempre no mesmo sítio, cada pausa chega ao segundo certo, mas a vivacidade desapareceu. Este «excesso de ensaio» reconhece-se porque o texto parece recitado de cor em vez de falado. Três a quatro ensaios completos chegam para a maioria dos discursos, mais a repetição específica de passagens difíceis. Quem quiser treinar mais deve fazê-lo em pontos concretos, não no texto inteiro, isso preserva a frescura nos pontos que já estão bem seguros. Um sinal de alerta de excesso de ensaio: quando, ao treinar, já não te ouves a ti mesmo e só vais buscar a frase seguinte, chegou-se ao ponto em que mais uma repetição prejudica mais do que ajuda.
Dar pesos diferentes ao ensaio consoante a ocasião
Numa defesa de tese de final de curso, o peso recai sobre o ensaio dois, porque o tempo previsto costuma ser rígido e vêm perguntas a seguir, para as quais a calma mental importa mais do que um discurso perfeitamente decorado. Num discurso do noivo, pelo contrário, é o ensaio três que mais conta, porque aqui a emoção e o contacto visual genuíno com os noivos pesam mais do que a segurança do texto; um público de teste feito de amigos próximos dá aqui um feedback honesto. Numa palestra keynote em contexto empresarial, vale ainda a pena olhar para a construção da mensagem central, para que também a estrutura se mantenha estável sob pressão de tempo, e não só as palavras. Quem ainda não está seguro, antes do primeiro ensaio, de como soa um início forte, encontra exemplos no guia sobre frases para começar um discurso, e quem trabalha sobretudo a brevidade do discurso encontra o que precisa no guia discurso curto.
Ensaiar precisa de um texto que valha a pena ensaiar
O plano de 3 ensaios só funciona se o texto de base já estiver certo, senão treina-se o erro em vez de o eliminar. O teleponto do eloqole acompanha exatamente estes três ensaios: mostra o texto num ritmo legível, para que os ensaios um e dois possam decorrer diretamente sobre ele, sem virar folhas nem segurar o telemóvel. Pede primeiro o rascunho que se ajuste ao teu tempo de discurso e ao teu tom, só depois começa o verdadeiro ensaio, e não a luta com o texto.