O que caracteriza um bom sermão
Um bom sermão interpreta um texto bíblico e relaciona-o com a vida das pessoas que o ouvem. Tem uma ideia central, uma estrutura clara (texto, relação com a vida, palavra de encorajamento) e uma duração adequada à ocasião. E reflete a personalidade de quem está no púlpito.
Quem quer escrever um sermão está a trabalhar numa disciplina antiga: a homilética, a ciência da pregação, é uma disciplina clássica da teologia pastoral e acompanha o cristianismo desde Agostinho. Não precisas de ter estudado teologia para isso. O que precisas é de: um texto das Escrituras, uma ideia que te toque nesse texto e a coragem de a dizer em voz alta.
Uma ideia sustenta toda a pregação. Uma perícope dá frequentemente para três ou quatro pregações; mesmo assim, limita-te a uma. Quem interpreta o Bom Samaritano e, ao fazê-lo, ainda tenta encaixar o amor ao próximo no dia a dia, o asilo eclesiástico e a festa paroquial, perde a pessoa na quarta fila ao fim de seis minutos. Um tema, bem desenvolvido, fica na cabeça até terça-feira.
A estrutura: texto bíblico, relação com a vida, palavra de encorajamento
Os três passos homiléticos estruturam quase todos os sermões cristãos, desde a missa dominical até à oração:
1. O texto e a sua interpretação. No início do trabalho de preparação do sermão está a exegese, a análise do texto bíblico: o que está escrito ali, a quem se dirigia, o que havia de chocante nessas frases naquela época? Quase todos os textos têm uma parte que parece difícil de entender — é exatamente aí que começa o sermão.
2. A ligação com a vida. O texto precisa de uma ponte para esta semana. A pregação torna-se concreta quando a Bíblia se cruza com algo que está a preocupar os teus ouvintes neste momento: a padaria da vila que fechou, o novo ano letivo, a discussão sobre o jardim de infância. Uma única observação genuína ancora o texto com mais força do que três histórias inventadas. As questões sociais também têm o seu lugar, desde que estejam ligadas ao texto e que o púlpito não se transforme numa tribuna partidária.
3. Consolo e missão. A pregação termina com o que o Evangelho promete às pessoas: consolo, encorajamento, uma missão para a semana. O final despede-te, não resume. Mais forte do que uma repetição dos pontos principais é uma última imagem ou uma frase para levar contigo. Se, depois do «Amém», houver um momento de silêncio, é porque o final funcionou.
Antes de começares a escrever, vale a pena fazer um esboço: introdução, dois ou três pontos principais, conclusão, uma palavra-chave para cada um, para que as ideias se sigam logicamente. A teóloga Annette Cornelia Müller, no seu estudo «Escrever uma pregação», analisou como os pastores e pastoras compõem o manuscrito das suas pregações. Resultado: muito poucos escrevem do início ao fim; muitos começam pela imagem final. É válida qualquer abordagem que te ajude a começar a escrever.
O comprimento certo: duração do sermão e número de palavras
Na maioria dos cultos evangélicos, o sermão dura entre oito e quinze minutos; a homilia católica ronda mais os cinco a dez minutos. Contas com cerca de 110 palavras por minuto durante a apresentação: o ritmo no púlpito é mais lento do que a linguagem do dia a dia, porque as pausas e a reverberação da igreja levam tempo. Dez minutos de pregação correspondem a cerca de 1 100 palavras no manuscrito.
Planeia seis a oito minutos para cerimónias especiais e três a cinco para uma oração. E encurta o texto enquanto o escreves: quem só percebe no púlpito que está a ficar demasiado longo acaba por improvisar, precisamente no final — a parte que devia ficar.
Variantes: para que ocasião estás a pregar
Missa dominical. O caso mais comum. Na Igreja Evangélica, o calendário de perícopes sugere o texto da pregação; falas para pessoas que conhecem o desenrolar da cerimónia e que estão ali por vontade própria. Aqui, a interpretação pode ser mais aprofundada.
Cerimónias: casamento, batismo, funeral. Num casamento ou batismo religioso, o público tem níveis de religiosidade muito diferentes; alguns estão numa igreja pela primeira vez desde a própria confirmação. A pregação é curta, explica pouco e conta muito. Leva a sério a ocasião concreta: este casal, esta criança, esta despedida. Para os discursos dos familiares, há páginas específicas: Discurso de batismo e Discurso fúnebre.
Oração. Uma breve reflexão espiritual de três a cinco minutos: numa festa de família, num grupo de idosos, no início de um retiro da paróquia. Basta um versículo como ponto de partida, ao qual se possa associar uma observação do dia-a-dia; uma reflexão não tem tempo para mais do que um pensamento.
Sermão de leigos. Na Igreja Evangélica, pregadores e leitores nomeados pregam regularmente, por exemplo, quando o pastor da paróquia está de férias. Se for a primeira vez que subes ao púlpito: escolhe um texto com o qual tenhas uma experiência pessoal e diz tranquilamente que não és teólogo; o público vai valorizar isso. Para discursos laicos num contexto eclesiástico (aniversário, despedida, festa paroquial), existe o Discurso Paroquial.
Encontras duas pregações curtas completas, uma pregação leiga sobre o Salmo 23 e uma reflexão de batismo no círculo familiar, acompanhadas de análise, nos nossos Exemplos de pregações.
O que importa na formulação
Escreve a pensar no ouvido. Um sermão é ouvido, sem botão de retrocesso e sem interação: ninguém pergunta nada se uma frase for demasiado longa. Frases principais curtas, verbos na voz ativa, uma ideia por frase. Lê cada parágrafo em voz alta: o que te fizer gaguejar ao falar deve ser eliminado ou dividido.
Dirige-te à cabeça e ao coração. Um sermão comunica em dois níveis: cognitivamente, através da interpretação e do argumento; emocionalmente, através de imagens e histórias. Se encadeares argumentos uns aos outros, torna-se uma palestra. Se faltar a interpretação, fica-se por uma anedota. Os bons sermões alternam entre ambos.
Usa a linguagem religiosa com moderação. Graça, salvação, redenção: estas palavras têm muito peso quando estão ligadas a uma experiência. Sem essa ligação, passam despercebidas por todos aqueles que raramente ouvem a linguagem da igreja. No entanto, também eles vivem um batismo ou um funeral como um momento espiritual. Um recurso retórico que funciona bem no púlpito é o apelo direto: «Talvez conheças isto.»
Os erros mais comuns
Ler a exegese em voz alta. Contexto histórico, termos gregos, conhecimentos de comentários: tudo isso é importante para a preparação do sermão. No sermão, só deve constar o que sustenta a ideia central; o resto fica na sala de estudo.
Fazer moralismo. Se metade das frases começar com «devemos», as pessoas percebem que lhes estás a fazer sentir culpa e deixam de prestar atenção. A encorajamento vem antes da exigência: primeiro o que é válido, depois o que daí pode advir.
Frases genéricas e vagas. «Hoje em dia, muitas pessoas estão stressadas»: esta frase poderia aparecer em qualquer sermão dos últimos trinta anos. Analisa cada parágrafo: há aqui algum pormenor que só se aplique a esta semana, neste local?
Começa no sábado à noite. Quem só prepara o sermão na véspera, anota a primeira ideia sem poder analisá-la. Um ritmo prático: texto na segunda-feira, esboço até quarta-feira, formular na quinta-feira, ler em voz alta e encurtar na sexta-feira. É assim que se cria um sermão com tempo de maturação.
É assim que a tua pregação surge com o eloqole
Ao escreveres a pregação, o eloqole trata da organização e da formulação por ti. Introduzes o texto bíblico, o motivo, o contexto da tua congregação e a tua ideia central, mesmo que sejam apenas notas soltas. O eloqole cria a partir daí um esboço com introdução, interpretação, aplicação à vida e palavra de encorajamento, que podes reorganizar, e depois redige o texto. A mensagem teológica continua a ser do pregador: és tu que decides o que vai ser dito do púlpito, e o eloqole ajuda-te a dizê-lo de forma clara. Depois, ensaias o texto no teleprompter ao teu ritmo de pregação, até soar natural.